Recife — O Nordeste brasileiro fechou maio de 2026 com 18,4 gigawatts (GW) de capacidade instalada em energia solar fotovoltaica — centralizada e distribuída somadas. O número representa 38% do total nacional e consolida a região como principal polo de expansão da fonte no país, à frente do Sudeste (29%) e do Centro-Oeste (18%), segundo levantamento do Sinal com base em dados abertos da ANEEL.
Números por estado
A Bahia lidera com 5,1 GW, seguida por Pernambuco (3,8 GW), Ceará (3,2 GW) e Rio Grande do Norte (2,4 GW). A combinação de irradiação solar elevada — média de 5,5 a 6,2 kWh/m²/dia na costa — e incentivos estaduais à geração distribuída explica parte do crescimento, mas analistas apontam também a migração de investimentos que enfrentam restrições de conexão no Sudeste.
Em 2025, o Nordeste adicionou 3,2 GW de capacidade solar, ritmo 22% superior ao ano anterior. O crescimento foi puxado por usinas em operação comercial acima de 50 MW no interior da Bahia e por microgeração residencial em Fortaleza, Recife e Natal — cidades onde a tarifa de energia elétrica subiu acima da inflação entre 2022 e 2025.
Gargalos de transmissão
A expansão acelerada expõe limitações na malha de transmissão. O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) registrou curtailment — redução forçada de geração por falta de escoamento — de 4,7% da produção solar nordestina no primeiro trimestre de 2026, valor que preocupa investidores e pode afetar leilões futuros.
O engenheiro Carlos Eduardo Prado, consultor em planejamento elétrico, explica: "O Nordeste já exporta excedente para o Sudeste em horários de pico solar, mas a capacidade de interligação não cresceu na mesma velocidade que a instalação de painéis. Sem reforço nas linhas e sem armazenamento, parte da energia limpa é desperdiçada".
O sol do Nordeste virou commodity. A questão agora é infraestrutura — e quem paga por ela.
Cooperativas e geração local
Além das grandes usinas, cooperativas rurais no sertão pernambucano e cearense instalaram sistemas compartilhados para bombeamento de água e irrigação. O modelo reduz dependência de diesel em propriedades isoladas da rede e aparece em programas de extensão rural de universidades federais da região.
Em Bodocó (PE), uma cooperativa de 84 agricultores familiares instalou 320 kWp em 2025 com financiamento do BNDES e economiza cerca de R$ 18 mil mensais em combustível, segundo levantamento da própria associação. Casos semelhantes existem no Piauí e no Rio Grande do Norte, mas ainda sem escala estatística consolidada em bases nacionais.
Impacto na matriz e nas emissões
A inclusão de solar reduziu a participação de termelétricas a óleo diesel no submercado Nordeste de 8,2% para 5,1% entre 2020 e 2025, segundo balanço energético preliminar do EPE. A estimativa de evitação de emissões de CO₂ varia conforme a metodologia, mas estudos do Instituto de Energia e Meio Ambiente (IEMA) apontam redução de 12 a 15 milhões de toneladas anuais na região com a matriz atual.
Especialistas em clima alertam, porém, que a transição energética regional não pode ignorar impactos territoriais: usinas de grande porte ocupam áreas que antes eram usadas para agricultura ou vegetação nativa do semiárido. Licenciamento ambiental e consulta a comunidades tradicionais seguem como pontos de tensão em pelo menos seis empreendimentos em tramitação no Ceará e na Bahia.
Limitações metodológicas
Esta análise usa dados de empreendimentos em operação e em teste da ANEEL, atualizados até 31 de março de 2026. Usinas em construção não entram no total instalado. Estimativas de curtailment são do ONS e podem ser revisadas trimestralmente.
Na atualização de 6 de junho, corrigimos o valor de Pernambuco após republicação de cadastro de duas usinas de geração distribuída.
Para sugestões e documentos: [email protected].