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Energia · Clima

Energia solar no Nordeste ultrapassa 18 GW — e muda o mapa da geração distribuída

Dados da ANEEL mostram que a região concentra 38% da capacidade fotovoltaica instalada no país. Analisamos expansão por estado, gargalos de transmissão e o papel das cooperativas rurais na transição energética regional.

Recife — O Nordeste brasileiro fechou maio de 2026 com 18,4 gigawatts (GW) de capacidade instalada em energia solar fotovoltaica — centralizada e distribuída somadas. O número representa 38% do total nacional e consolida a região como principal polo de expansão da fonte no país, à frente do Sudeste (29%) e do Centro-Oeste (18%), segundo levantamento do Sinal com base em dados abertos da ANEEL.

Capacidade instalada de energia solar no Nordeste
Distribuição estimada por submercado. Elaboração Sinal com dados ANEEL, março de 2026.

Números por estado

A Bahia lidera com 5,1 GW, seguida por Pernambuco (3,8 GW), Ceará (3,2 GW) e Rio Grande do Norte (2,4 GW). A combinação de irradiação solar elevada — média de 5,5 a 6,2 kWh/m²/dia na costa — e incentivos estaduais à geração distribuída explica parte do crescimento, mas analistas apontam também a migração de investimentos que enfrentam restrições de conexão no Sudeste.

Dado em destaque A geração distribuída — usinas de até 5 MW e sistemas em telhados — responde por 41% da capacidade solar nordestina, acima da média nacional de 35%.

Em 2025, o Nordeste adicionou 3,2 GW de capacidade solar, ritmo 22% superior ao ano anterior. O crescimento foi puxado por usinas em operação comercial acima de 50 MW no interior da Bahia e por microgeração residencial em Fortaleza, Recife e Natal — cidades onde a tarifa de energia elétrica subiu acima da inflação entre 2022 e 2025.

Gargalos de transmissão

A expansão acelerada expõe limitações na malha de transmissão. O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) registrou curtailment — redução forçada de geração por falta de escoamento — de 4,7% da produção solar nordestina no primeiro trimestre de 2026, valor que preocupa investidores e pode afetar leilões futuros.

O engenheiro Carlos Eduardo Prado, consultor em planejamento elétrico, explica: "O Nordeste já exporta excedente para o Sudeste em horários de pico solar, mas a capacidade de interligação não cresceu na mesma velocidade que a instalação de painéis. Sem reforço nas linhas e sem armazenamento, parte da energia limpa é desperdiçada".

O sol do Nordeste virou commodity. A questão agora é infraestrutura — e quem paga por ela.

Cooperativas e geração local

Além das grandes usinas, cooperativas rurais no sertão pernambucano e cearense instalaram sistemas compartilhados para bombeamento de água e irrigação. O modelo reduz dependência de diesel em propriedades isoladas da rede e aparece em programas de extensão rural de universidades federais da região.

Em Bodocó (PE), uma cooperativa de 84 agricultores familiares instalou 320 kWp em 2025 com financiamento do BNDES e economiza cerca de R$ 18 mil mensais em combustível, segundo levantamento da própria associação. Casos semelhantes existem no Piauí e no Rio Grande do Norte, mas ainda sem escala estatística consolidada em bases nacionais.

Impacto na matriz e nas emissões

A inclusão de solar reduziu a participação de termelétricas a óleo diesel no submercado Nordeste de 8,2% para 5,1% entre 2020 e 2025, segundo balanço energético preliminar do EPE. A estimativa de evitação de emissões de CO₂ varia conforme a metodologia, mas estudos do Instituto de Energia e Meio Ambiente (IEMA) apontam redução de 12 a 15 milhões de toneladas anuais na região com a matriz atual.

Especialistas em clima alertam, porém, que a transição energética regional não pode ignorar impactos territoriais: usinas de grande porte ocupam áreas que antes eram usadas para agricultura ou vegetação nativa do semiárido. Licenciamento ambiental e consulta a comunidades tradicionais seguem como pontos de tensão em pelo menos seis empreendimentos em tramitação no Ceará e na Bahia.

Limitações metodológicas

Esta análise usa dados de empreendimentos em operação e em teste da ANEEL, atualizados até 31 de março de 2026. Usinas em construção não entram no total instalado. Estimativas de curtailment são do ONS e podem ser revisadas trimestralmente.

Na atualização de 6 de junho, corrigimos o valor de Pernambuco após republicação de cadastro de duas usinas de geração distribuída.

Para sugestões e documentos: [email protected].

Juliana Moura

Juliana Moura

Editora de Energia e Clima · Sinal

Engenheira eletricista e mestre em planejamento energético pela UFRJ. Trabalhou no Operador Nacional do Sistema Elétrico entre 2015 e 2021. Cobre transição energética e políticas climáticas no Brasil.