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Ecologia · Clima

Seca no Pantanal: o que os dados do INPE revelam sobre queimadas e nível das águas em 2026

Boletins do Programa Queimadas e estações hidrológicas indicam estiagem acima da média no sudoeste mato-grossense. Cruzamos satélites, séries históricas e relatos de campo para separar anomalia de tendência.

Cuiabá — O Pantanal sul entrou em junho de 2026 com déficit hídrico acumulado que preocupa pesquisadores e gestores ambientais. Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), consolidados pelo Programa Queimadas e cruzados com informações da Agência Nacional de Águas, mostram combinação de chuvas abaixo da média, recu̇o de áreas alagadas e aumento de focos de incêndio em relação à média da última década.

Visualização de dados de queimadas no Pantanal segundo o INPE
Recorte do sudoeste mato-grossense. Elaboração Sinal com dados do Programa Queimadas/INPE, maio–junho de 2026.

O que os satélites registram

Entre 1º de maio e 5 de junho de 2026, o INPE contabilizou 4.218 focos de calor no bioma Pantanal — valor 47% superior à média do mesmo período entre 2010 e 2020. A concentração está no corredor que liga Corumbá a Porto Murtinho, região que já havia sofrido com queimadas recordes em 2020 e 2024.

Dado em destaque Em maio de 2026, o nível do Rio Paraguai em Ladário (MS) ficou 1,9 metro abaixo da média histórica para o mês — o terceiro menor registro desde o início da série sistemática em 1970.

As imagens de satélite AQUA/MODIS e NOAA-20 permitem identificar focos com resolução de até 375 metros, mas não distinguem fogo natural de queimada criminosa sem verificação em campo. O INPE classifica os alertas por confiança — baixa, média ou alta — e publica boletins diários. No período analisado, 62% dos focos no Pantanal receberam classificação média ou alta.

Seca estrutural ou evento extremo?

Pesquisadores do Laboratório de Estudos e Pesquisas em Sensoriamento Remoto e Meteorologia Aplicada à Agricultura (LAPAN) e do Instituto de Física da UFMT divergem parcialmente sobre a leitura. Para a ecologista Dra. Helena Sousa, "o Pantanal vive ciclos de cheia e seca, mas a frequência de anos secos consecutivos aumentou desde 2000 — isso não é ruído estatístico".

Já o hidrólogo Marcos Antônio Ribeiro, consultado para esta reportagem, alerta contra generalizações: "Um único ano seco não prova mudança climática no bioma, mas a combinação com temperatura elevada e uso do fogo antecipado agrava danos que a recuperação natural demora décadas para compensar".

O Programa Queimadas captura calor superficial. Nem todo foco vira incêndio de grande porte — mas a correlação com áreas desmatadas e pastagens é documentada em estudos do INPE desde 2004.

Impactos documentados em campo

Em visita a duas fazendas de criação de gado no município de Aquidauana, produtores relataram redução de 30% a 40% na capacidade de suporte das pastagens em relação ao mesmo período de 2024. Peixes mortos em poços isolados foram registrados por agentes do ICMBio em três unidades de conservação federais. A fauna de maior porte — onças-pintadas, ariranhas, jacarés — ainda não apresenta dados consolidados de mortalidade, mas biólogos de campo descrevem deslocamento forçado para corpos d'água remanescentes.

O governo do Mato Grosso do Sul decretou situação de emergência em 18 municípios pantaneiros em 28 de maio. O Ministério do Meio Ambiente liberou R$ 12 milhões para combate a incêndios na região, valor que especialistas consideram insuficiente diante da extensão do bioma — cerca de 150 mil km² no território brasileiro.

Limitações dos dados

Esta análise usa boletins públicos do Programa Queimadas, séries hidrológicas da ANA e estimativas de precipitação do CHIRPS/CPTEC. Nuvens densas podem mascarar focos em dias específicos; por isso trabalhamos com médias semanais. Dados de umidade do solo ainda não estão disponíveis em resolução adequada para todo o bioma em tempo quase real.

Na atualização de 9 de junho, incorporamos correção em dois municípios cujos limites foram ajustados em bases cartográficas estaduais, recalculando a distribuição espacial dos focos sem alterar o total regional.

O Sinal acompanhará os boletins do INPE e publicará atualizações conforme novos dados. Leitores podem enviar informações verificáveis para [email protected].

Ana Cláudia Ferreira

Ana Cláudia Ferreira

Editora de Ecologia · Sinal

Bióloga e jornalista ambiental com mestrado em ecologia de ecossistemas pela UFMT. Cobriu queimadas no Pantanal e na Amazônia entre 2018 e 2024. Especialista em sensoriamento remoto aplicado a biomas tropicais.